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quarta-feira, 1 de junho de 2011

TAO TE KING


O “Tao”

Como todo ideograma da língua chinesa, a palavra “Tao” pode receber inumeráveis traduções em nossas línguas modernas: a Divindade, o Absoluto, o Ser Supremo, o Infinito, o Eterno, o Insondável, o Uno, o Todo, a Fonte, a Causa, a Realidade Última, a Alma do Universo, o Caminho, o Sentido, a Inteligência Cósmica... e outras ainda. Como nome, ele é simplesmente uma espécie de signo algébrico para designar o Mistério dos Mistérios, o Mistério supremo. Embora tenha os atributos da Divindade, não devemos logo identificá-lo com o Deus dos judeus e cristãos, pois ele não é concebível como um Deus Pessoa, mas como um Deus Cósmico, bem conhecido de místicos como Demócrito (filósofo grego), Francisco de Assis (místico cristão) e Spinoza (filósofo judeu), e por outros místicos, que por isso mesmo sempre levantaram suspeitas nos círculos científicos e religiosos do tempo em que viveram.

O Tao é o Uno, que é constituído pela síntese fontal dos opostos, reunindo em si ao mesmo tempo o Yang e o Yin, a Luz e a Treva, O Masculino e o Feminino, o Positivo e o Negativo, e todos os demais opostos. Diríamos que ele é um complexo ou compositio oppositorum, “compleição ou composição dos opostos”, a unidade pelo perfeito equilíbrio dinâmico dos contrários, resultando no que Nicolau de Cusa chama de coincidentia oppositorum, a “coincidência dos opostos”. Isso leva a um profundo senso de complementaridade de tudo o que existe – uma vez que o Tao está presente no mais fundo de toda a realidade –, assim como de uma concepção da divindade que não é exclusivamente masculinaou feminina, mas que transcende ambos os princípios num perfeito equilíbrio: em seu ser e em sua ação, Deus é masculinoe feminino, ao mesmo tempo.

O Tao, portanto, é em si mesmo o Mistério que escapa a qualquer investigação lógica discursiva, e só é atingível pela intuição mística. ele não tem nome, e é a contragosto que o autor o chama deTa o. Mas a ação dele é sentida por todos os seres, que o experimentaram como a força do masculino agindo através da suavidade do feminino, a paternidade do masculino através da maternidade do feminino. Desse modo, ele é também chamado deMãe de todas as coisas. É decisiva, portanto, a concepção de uma divindade que integra o princípio feminino e age através dele. No Tao encontra-se também a raiz e o fundamento da receptividade do feminino.

O conceito mais típico do livro é o do wu wei, da “atividade sem ação” ou do “não-agir”, que é um estado de passividade, mas de uma passividade totalmente ativa, no sentido de ser receptiva. Isso é a essência do feminino e também o modo de o Tao agir sem ação, porém realizando tudo. A mulher é passiva em relação ao homem, a fim de receber a semente que a torna fértil. É uma passividade ativa, dinâmica e criativa, da qual brotam a vida e seus frutos, o amor e a comunhão. O mundo necessita hoje descobrir este senso do poder feminino, que é complementar ao do poder masculino e sem o qual o homem se torna dominador, estéril e destrutivo. Há muito tempo o mundo ocidental está seguindo o caminho doYan g, o caminho da mente masculina, ativa, agressiva, racional e científica, levando o mundo à beira da destruição. É tempo de recuperar o caminho do Yin, da mente feminina, passiva, paciente, intuitiva, poética, geradora e nutridora da vida. Também é tempo de redescobrir a face feminina de Deus. Este é o caminho que o Tao Te King nos propõe. O Tao éonipresente. É a fonte e a base do ser da Natureza e do Universo, e também de cada ser em particular. Ao mesmo tempo que está presente em tudo, ele também ultrapassa tudo, aplicando-se a ele a apresentação que são Boaventura faz de Deus: Deus est circulus cuius centrum ubique, circunferentia vero busquam (“Deus é um círculo cujo centro está em todo lugar e cuja circunferência não se encontra em lugar nenhum”). Não se trata depanteísmo (=Deus é tudo), mas depanenteísmo (=Deus em tudo). A realidade visível seria o testemunho do Tao, que faz tudo evoluir para o ponto em que, como diz o apóstolo Paulo, Deus será “tudo em todos” (1Coríntios 15,28). O místico é capaz de ver esse projeto em andamento, e procura harmonizar-se com ele, tanto em si mesmo como na sua ação em favor dos outros.

O “Te”

O Tao é o Uno infinito e invisível, porém, manifesta-se de forma finita e visível através do Te, a Natureza, que inclui a dualidade oposta formada pelo Céu (princípio masculino espiritual) e pela Terra (princípio feminino material). Da união entre o Céu e a Terra nascem todos os seres e coisas, levando no mais profundo de si mesmos a imagem e a semelhança do Tao, e de seu perfeito equilíbrio entre os opostos. Em outras palavras, cada ser leva na sua base mais íntima a presença do Tao que preside à sua realização enquanto ser. O Te seria, portanto, a Virtude, ou seja, a força ou impulso vital do Tao presente na Natureza e em todo o Universo.

Isso nos conduz seja ao ser humano em si, tomado como indivíduo, e à sua realização psicofísica, desde que o pequeno Eu consciente se volte para o Si-mesmo, espelho do Tao no seu interior mais profundo, entregando-se ao impulso que vem do Tao e se manifesta no Si-mesmo, levando o indivíduo à consecução da sua mais elevada individualidade (in-divíduo = não divisível). Em outras palavras, o impulso que vem do Tao leva o indivíduo a tornar-se “imagem e semelhança” do próprio Tao. A esse processo C. G. Jung deu o nome de “individuação”.

Também a vida social pode ser focalizada segundo a percepção do Tao. Já dissemos que o Tao é o perfeito e infinito equilíbrio entre os opostos. Isso também pode ser chamado de “equilíbrio infinito da justiça”. Na vida social, cheia de desigualdades e conflitos por causa das pretensões e ambições dos pequenos Eus agrupados, a busca do Tao é, em última análise, uma contínua busca da justiça que leva à vida em equilíbrio, evitando qualquer excesso para mais ou para menos. Daí o ideal da moderação e da frugalidade: todos com igual direito àvida (isto é, aos bens necessários para mantê-la) e àliberdade (a possibilidade de participar na organização da sociedade e nos rumos da história). Portanto, nem isso nem aquilo: nem a pobreza nem a riqueza; nem o poder nem a impotência.

Quanto à autoridade política, o ideal que deve reger o governante é o modo de agir do Tao: a força do masculino através da suavidade do feminino, ou a ação da não-ação. O governante ideal é o que representa (torna presente) de tal modo a presença do Tao e de sua ação, que o povo nem percebe a presença do próprio governante, vivendo com a sensação de se autogovernar a partir de sua própria liberdade, que nasce do Si-mesmo e do governo do Tao.

O Tao é também comparado à água, que beneficia todas as coisas, e sempre ocupa o lugar mais baixo. Encontramos aqui a virtude da humildade, a pobreza de espírito do Sermão da Montanha (Mateus 5,3). Isso leva ao valor paradoxal dovazio: “Modelais a argila para fazer um pote, mas a utilidade do pote vem do vazio” (cf. 11). Traduzido em termos pessoais, isso significa que a utilidade da pessoa supõe o esvaziamento do seu pequeno Eu, a fim de que o Tao a preencha com sua presença e ação. Todo seguidor do Tao é, portanto, uma pessoa que deixou as pretensões ou ambições pessoais: quando ele se esvazia, o Tao tudo preenche e, através da não-ação do seu pequeno Eu, o Tao tudo realiza. Dessa forma, o Sábio, ou seja, todo seguidor do Tao, se torna sinal e sacramento da presença e da ação do Tao.

Lao Tse

É muito difícil situar um personagem com o nome de Lao-Tse (= “ancião”; nome que também pode ser traduzido por “criança velha”) na história literária chinesa. Os chineses em geral cultuam mais o simbólico do que o histórico. Poucas fontes históricas o situam pelo fim do séc. VII a.C. e meados do séc. VI a.C., sendo, portanto, contemporâneo de Kong-Fu-Tse (Confúcio).

Segundo uma tradição mais ou menos lendária, Lao-Tse teria sido bibliotecário ou arquivista na corte chinesa, de onde pôde observar de perto a decadência política e social do seu tempo. Decepcionado com o estado das coisas do Império, na meia-idade teria deixado a corte e se tornado eremita numa floresta, onde viveu a segunda metade de sua vida, contemplando e meditando. No fim da vida, aos oitenta anos, teria se dirigido para a fronteira, procurando deixar a China com destino à Índia. O guarda da fronteira pediu-lhe então que deixasse algo escrito sobre o seu pensamento. Lao-Tse entregou-lhe, pois, um pequeno livro contendo cinco mil ideogramas, que formariam o assim conhecido Tao-Te King. Depois atravessou a fronteira, tomando rumo desconhecido. Desse modo Lao-Tse teria seguido até o fim o caminho do Sábio, escondendo-se por trás de sua obra, que continua viva até os dias de hoje e que se tornou em todos os tempos um dos pilares básicos do pensamento e do modo de vida chinês.

As intuições do Tao-Te King abordam, em estilo simples e penetrante, aspectos bastante comuns da vida, muito embora passem derpercebidos à maioria das pessoas. Por incrível que pareça, muitas vezes é difícil captar o mistério que se esconde por detrás do óbvio. As pessoas, em geral, pensam e se preocupam com grandes problemas, não se dando conta de que eles começam de forma pequena e óbvia. Lao-Tse nos ensina a ver o que é óbvio e nele descobrir as raízes mais profundas do mundo e de nós mesmos. A sabedoria, com efeito, não é a posse de uma vasta cultura, mas reside na formação de umdiscern imento capaz de penetrar todas as coisas e situações, nelas descobrindo o sentido que se esconde por trás daquilo que nos parece tão óbvio.

O Tao-Te King representa a mais alta expressão do pensamento chinês, constituindo-se por si próprio um completo sistema filosófico, dotado de uma Metafísica, que entrevê e descreve no Tao a causa primeira, o bem supremo do Universo; de uma Moral, que indica ao homem o caminho para alcançar o seu próprio fim; e de uma Política, que mostra aos governantes a via que estes devem percorrer para o progresso e o bem-estar do povo.

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