segunda-feira, 5 de setembro de 2016

ENTRE SELOS, DUBS E VERSÕES




O vinil como produto, não é muito diferente de qualquer outro tipo de produto; tem valor agregado, preço e pode valorizar ou desvalorizar absurdamente com o tempo. E existe uma extensa gama de variáveis que podem deixar ele com um valor agregado mais alto, ou desvalorizar um item de colecionador a partir de um repress ou reissue.


Um dos principais fatores para um título ou edição de vinil se valorizar - além da morte de alguém, é o formato da edição do vinil, e existem alguns que para nós aqui nas terras tupiniquins não são usuais. Nos habituamos com; Álbuns em formato de LP's e o Remix que na maioria das vezes está no mesmo álbum. Singles foram praticamente extintos a partir da década de 70, e deram vazão aos LP's promovidos pelas gravadoras majors (Warner Music, Sony Music, Universal Music, etc). A partir da década de 80, gradativamente as gravadoras de médio porte nacionais foram: sendo extintas, faliram ou foram absorvidas pelas grandes multinacionais. Das poucas que restaram, tentaram copiar a forma de gestão e o mesmo modelo de lançamento de produtos das grandes, que ainda conseguiam vender alguns milhões de cópias de discos naquela época com celebridades.

Nesse caso, vender muito nunca foi sinônimo de qualidade, criatividade ou inovação. Artistas do mainstream americano sempre venderam muito, assim como duplas nacionais de suposta música sertaneja também, mas é fácil achar discos em sempre por alguns poucos reais. E nesse aspecto de desvalorização que um disco por ser 'comum' pode deixar de valer muito no decorrer do tempo Mas isso não quer dizer que ele tenha sido mal produzido ou de má qualidade, simplesmente ele pode ter ficado esquecido como obra, ou ter sido irrelevante para sua época.

Em outro aspecto, edições limitadas e o acesso a produções autorais de maior investimento criativo e de marketing, podem ter um valor agregado alto. E adquirindo a cópia no lançamento, é possível prever hoje em dia que uma edição vai se tornar rara ou ter seu valor agregado maior no decorrer dos anos.

Um dos grandes portais de busca de catálogos de discos é o discogs - e é o portal que usamos para vender os títulos em estoque. E no decorrer do tempo um dos grandes fatores que ajudaram no catálogo foi a padronização dos formatos lançados pelos selos e gravadoras.


No texto "Desmistificando o Vinil Original Press", que serve como matriz para esse artigo, já da para ter uma noção sobre a forma de prensagem, e abaixo tem uma especificação do que um possamos dizer produtor, resolveu fazer com a música dele ou com qualquer outra música. Para os termos abaixo, se pesquisar vai encontrar diversas formas de explicar 'o que é o que', a indicação é de que se busque alguns denominação, além do óbvio Wikipedia. A indicação sempre é buscar alguns livros a respeito, e visitar sites com descrições autorais, de produtores, dj's e colecionadores.

Na imagem ao lado, é exatamente a tabela de quais informações do vinil, devem constar para um título ser cadastrado no discogs;

  • Qty (Quantidade): É a quantidade de mídias contidas em determinado título; LP Duplo é igual a 2 x LP, LP Triplo é igual a 3 x LP, LP Quadruplo é igual a 4 x LP, e assim por diante.
  • Size (Tamanho): É o formato da mídia, habitualmente utilizamos 7", 10" e 12", mas existem variáveis. As aspas após o número representam polegadas (inch's).
  • Speed (Velocidade/RPM): É o numero de rotações por minuto do vinil, sendo habitualmente 33 1/3 RPM, 45 RPM e 78 RPM.
  • Shape: Formato da mídia, mas raramente eu utilizei essa informação em qualquer descrição.
  • Sides (Lados): Duas opções apenas, ou o vinil é 'Single Sided' (único lado) ou ambos. Somente utilize se for Single Sided se houver registro em apenas um dos lados.
  • Description (Descrição): Aqui é um dos campos mais importantes, é relacionado ao formato divulgado do título; LP, EP, Single Compilation, Limited Edition, Mixtape, etc. Nesse campo é bom ter o título em mãos e verificar todas as infos.
  • Channels (Canais): Se trata da masterização do título que pode ser Stereo, Mono, Quadrifônico ou Ambisônico, e o número de canais onde a trilha foi dividida. Habitualmente a masterização é Stereo (dois canais) ou Mono (um canal).
Agora existem outros formatos de lançamento, tanto do formato do Selo (ou etiqueta), que é o principal fator que define a edição daquele título; edição limitada, deluxe, promo, test press, etc... E a famigerada tal da versão produzida; remix, refix, mash up, bootleg, dubplate, e etc...

Mas você pode perguntar; mas não é tudo a mesma coisa?... A resposta é não, não é. Cada seguimento ou denominação no decorrer do tempo tem o propósito de diferenciar o trabalho do produtor, e o formato na finalização do produto.

Abaixo tem uma descrição breve do que cada denominação significa:

Test Press, Blanks e White Labels
São os discos com o selos brancos, lisos em sem nenhum escrito ou denominação; nome da música, artista, banda, selo, produtor, etc. As 'Test Press' normalmente vem com o nome do artista e o número de catálogo - em alguns casos existe um selo do fabricante indicando que é aquele vinil é um 'Test Press'. A quantidade de discos 'Test Press' prensados variam de 5 a 20 unidades, podendo ser aprovados ou descartados (nesse caso é feita uma nova tiragem).

Blanks e White Labels, são parecidos mas não são iguais. Blanks são os títulos lançados por um selo, mas sem a impressão da marca ou título. Um disco Blank pode ser Blank por vários motivos; o selo não quis pagar a impressão, o fabricante errou a prensagem da tiragem, o responsável pela prensa errou ao não colocar o selo correto, enfim. Um Blank não é um disco pirateado ou algo do gênero, é um produto no qual simplesmente a etiqueta não foi impressa, mas o número do catálogo do selo é visualizado na borda no final da trilha (run out).



Agora os White Labels (selos brancos) são uma categoria a parte. Diferente dos Blanks, os discos de selo branco hoje em dia em sua maioria categoriados como 'Unofficial' - lançamentos não autorizados pelo detentor dos direitos autorias da obra e do registro fonográfico.

Diversos DJ's acabam lançando suas músicas nesse formato. Os 'copyrights' não são pagos, e ele acaba ganhando apenas na venda do vinil. Nos anos 90, DJ's de gêneros como Hip Hop, Drum N' Bass, Jungle, House, Techno, Garage e diversos produtores lançaram versões não oficiais de reggae, se aproveitaram do formato dos White Labels. A partir dos anos 2000, DJ's de música eletrônica continuaram se aproveitando dos 'white labels' para colocar o seu trabalho a venda, e com o surgimento do dubstep, os 'white labels' foram talvez os mais utilizados para a comercialização dos 'refixes' produzidos pelos principais produtores do gênero.


Dubplate
Muitos mais novos amantes aficionados do mundo do reggae e das sound systems, tem na sua mente a ideia de quem dubplate é uma 'arma' a ser utilizada para soundmans aniquilarem soundboys, em faixas exclusivas produzidas anteriormente com o advento do cantor, mc, deejay, ou qualquer nome que queira dar, dizer o nome de quem está tocando (seletor, dj, sound system, etc.), dizendo que ele é o melhor do mundo. Mas sinto lhe dizer, dubplates existem antes do reggae e sua aplicação no universo musical é maior que muita a ideia de ser utilizado apenas no reggae.

Um dubplate é um disco de acetato - geralmente no formato de 10 polegadas de diâmetro - usado em estúdios para gravações com a finalidade de realizar um controle de qualidade, e testar antes de prosseguir com o produto final, e depois é realizado a tiragem do vinil com produto para venda. A palavra "dub"  é uma abreviação da palavra "dubbing", que em português tem uma alusão que pode ser dita como "duplicação" ou "duplicar" a versão original de uma faixa. O nome dubplate também se refere a uma música exclusiva, que ficaram famosas por serem utilizadas em sistemas de som de reggae, mas também foram muito utilizadas por produtores e dj's de drum and bass, garage e outros produtores de música eletrônica, dj's de hip hop e donos de sistemas de som.


Estes dubplates, muitas vezes, são gravações inéditas (que podem ou não acabar sendo colocados à disposição do público em geral) ou versões exclusivas ou remixes de gravações existentes. Eles eram frequentemente usados ​​como uma ferramenta de pesquisa de mercado para avaliar as vendas prováveis ​​de uma música, já que (relativamente) eles são muito mais baratos do que produzir uma tiragem de um música em vinil
. No entanto, não muito pouco tempo atrás o material usado (acetato) para 'cortar' o dubplate era mais macio, a ranhura ficava desgastada, pouco a pouco com cada reprodução. Depois de cerca de cinquenta usos a perda na qualidade do som se tornava perceptível. Atualmente já são produzidos em novos materiais, e mais duráveis.


Agora existe uma gama de termos que surgiram no decorrer dos anos, para definir a ideia de quem produziu algo que considera ser novo. O difícil é categorizar e principalmente definir 'o que é o que' num universo tão abrangente quanto é a música. Abaixo estão alguns termos que surgem na compra de um título em vinil, cd ou qualquer mídia, mas não fica muito claro muitas vezes do que se trata:

Repress e Reissue
Eu já escrevi de forma bem detalhada sobre Repress e Reissue no texto já citado "Desmistificando o Vinil Original Press". No link ao lado, você consegue ter as informações sobre o que é (resumidamente a seguir) um Repress: que é um título reprensado de uma mesma matriz. E o que é um Reissue: que é um título relançado a partir de uma nova matriz. Resumidamente e muito resumidamente mesmo é isso. Maiores detalhes  clique no link.


Bootleg, Mashup, Refix, Remix, e Etc.
No texto sobre"A História do Dancehall", eu começo dizendo nas primeiras linhas: "A cada 5 anos alguém, algum produtor ou músico inventa um nome novo (...) e confunde outras com esse novo nome dado a determinado estilo ou música." Essa frase vale também para as denominações a seguir, e reforçando, de tempos em tempos alguém inventa um nome novo para definir algo que já existe. A intenção é de apropriação, mas existe um abismo de diferença entre inventar e inovar, enfim... vou tentar dar alguns exemplos com músicas sobre cada termo. Mas já aviso, algumas coisas por mais que se tente ver diferenças, são extremamente semelhantes. 


Bootleg
O Bootleg existe há décadas e pode ser considerado o "pai que não reconheceu a pirataria como filha". Obviamente Bootlegs são mais legais que cd's piratas - que são feitos a partir do original. Bootlegs - em sua essência, são gravações realizadas com ou sem o conhecimento do artista. E essas gravações eram lançadas sem o devido pagamento do copyright e royalties (que são direitos autorais), e como dito sem o conhecimento do artista muitas vezes. Esses Bootlegs poderiam ser shows ao vivo ou gravações realizadas em um estúdio, e alguém resolveu lançar como um título não autorizado, isso alguma décadas atrás. Hoje pode se dizer que o Bootleg está mais próximo do que pode ser definido como remix. Em muitos casos o termo Bootleg foi substituído por 'Unofficial', já que muitas gravadoras e selos 'legalizaram' o negócio de bootlegs... mas eles continuam existindo.


MashUp
Tem um pouco de Bootleg, mas nem todo MashUp é Bootleg. O intuito de um MashUp é juntar duas músicas diferentes juntas... simples assim. Mas ainda é diferente de um remix. MashUps habitualmente buscam juntar (ou se preferir mixar) gêneros diferentes. Isso já é feito há tempos e foi exaustivamente lançado por dj's e produtores de hip hop. E acabou por ser usado em outros gêneros também. Um MashUp somente pode ter a descrição de Bootleg se for lançado sem aquela licença básica e pagamento de direitos autorais. Abaixo dois exemplos de MashUps que são Bootlegs:

 Abaixo a música 'Travellin' Man' de Mos Def, que foi mixada junto de 'Underground' de Lee Perry. Isso é um MashUp porque oficialmente nenhum dos dois gravaram juntos em nenhum momento na história. 'Underground' foi gravada no Black Ark por Lee Perry em 1976 e lançada no LP clássico 'Super Ape'. Já 'Travellin' Man' foi gravada por DJ Honda e Mos Def em 1998. A música 'Travellin Underground' está no álbum Mos Dub foi produzido por Max Tanone em 2010.
 
E agora está uma fase oposta, onde o vocal é mais antigo que o instrumental. O DJ Sheepdog é conhecido pela festa Nice Up! que acabou por se tornar um selo, e lançou pelos meados dos anos 2000 diversos MashUp's, em sua maioria variando entre o hip hop e o dancehall juntos. A música 'Jah Wish', é um MashUp entre um clássico de 1996, com a música 'I Wish' do rapper Skee-Lo, que fez muito sucesso em coletâneas por aqui, e pela banda obscura por assim dizer 'Black Grass' com a música 'Oh Jah' com voz do Jah Marnya lançada em 2006. Abaixo as originais, e por último como ficou o MashUp lançado pelo selo Nice Up!



Refix
Dizem que um Refix é a junção de duas músicas de estilos diferentes, mas ai você pode me perguntar; Mas Ras isso não seria um MashUp?... A resposta é não, um Refix quer dizer que a música utiliza um elemento pré gravado e o outro é produzido a partir do zero, um exemplo de 'Refixes' são as produções de dubstep, que em diversos momentos utilizam essa fórmula. A principal diferença entre um remix e um refix, é a que a música é a mesma, mas o gênero é diferente, existem as similaridades, mas a construção da música e os padrões são diferentes.

Abaixo o exemplo da música 'Wickedness' de Brother Culture e Mungos Hi Fi, e a versão original e a Refix. 


Remix
Em sua maioria um versão diferente de uma música, no mesmo gênero original, ou num gênero diferente. O termo 'Remix' vem de fazer uma nova mixagem na música. Eu penso ser controverso quando alguém insere algo do tipo 'trip hop remix', 'hip hop remix', ou qualquer coisa do tipo, em casos assim eu penso ser uma nova canção, ou pode estar mais próximo do que é considerado um 'Refix'. Um dos casos mais fáceis de saber - e visualizar, o que é um Remix, talvez seja, o álbum 'Catch a Fire' do Wailers, que depois de remixado o grupo se tornou Bob Marley & The Wailers.  Pois bem, hoje é possível ouvir a versão do álbum remasterizado gravado na Jamaica, e o álbum póstumo lançado pela Island de Chris Blackwell ou 'Whitewell' carinhosamente chamado por Peter Tosh.

A grande diferença entre os dois álbuns é o minimalismo das gravações realizadas na Jamaica. A quantidade de arranjos e instrumentos é muito menor, a vocalização é mais clara e o álbum fica mais óbvio. A versão da Island é recheada de overdubs, com mais solos de guitarras e órgãos. Ambas as versões são extremamente interessantes, mas eu sempre acabo preferindo a versão jamaicana.    
Por último, mas não menos importante, as versões e os dubs no Lado B dos discos, ou na sequência da faixa título. Nem toda versão de um reggae é um dub, e nem todo dub provém de uma faixa principal com vocal. Alguns músicas já são produzidas com o intuito de ser um dub, o conceito do gênero desde o inicio já estava na concepção da ideia do produtor. E por outro lado, nem toda versão é um dub, em muitos casos são extensões instrumentais.



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