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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A Luta Continua

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No início desta década, eu comecei a escrever uma série de textos com o título 'Republiqueta dos Bananas', no site do Fyadub. Uns poucos anos atrás, mas não faz tanto tempo assim.

Eles eram um mix de direita e esquerda de pensamentos equivalentes, mostrando como bolsonaristas, ou bolsominions, agiam da mesma forma que lula-petistas, ou esquerdopatas.

Alucinados em instituir medo, gritando que o outro lado trará as trevas, a dor, a miséria e tudo de ruim que há. Evidente que o bolsonarismo foi uma cria do petismo, uma espécie de Gremlin, usando o mesmo populismo do petismo instituído no poder há mais de 20 anos contra ele mesmo.

Nós elegemos — porque somos uma nação só, e a maioria escolhe a quem dará poderes executivos e o de legislar —, dito isso, elegemos um aloprado para governar o país por 4 anos, e tivemos um período de pura tristeza e sadismo, que foi a pandemia da Covid-19. Elegemos Jair Bolsonaro com a premissa de não deixar voltar ao poder um ser corrupto, de moral duvidosa, sem capacidade de governar o país.

Agora, reelegemos o Presidente Lula por mais 4 anos, um recorde uma pessoa ficar no poder por 16 anos num país dito democrático — eu prefiro a expressão demoniocrático. Essa longevidade no poder, esse tempo todo de poder só é possível em ditaduras instituídas, e a gente gosta de flertar com ditadura, seja bolsonarista, seja esquerdopata.

Cada um dos lados acredita que o apoio e voto oposto são feitos por gente burra, mesmo que nenhum dos lados tenha lido um livro de 200 páginas no ano, estudado um com profundidade, ou saiba quais serão as diretrizes e as metas do governo que querem eleger. Até agora, mesmo com Lula vitorioso na eleição para presidente, não sei quais são as propostas do Flávio Bolsonaro, nem é possível saber como Lula manterá as propostas populistas sem o risco de sofrer um impeachment.

O meu voto no Lula, descobri há poucos dias, foi um voto crítico. É impressionante como criamos termos, inventamos razões e criamos espécies complexas de superstições para justificar os problemas agora, criados por decisões ruins no passado. Nossos problemas de décadas são econômicos, são educacionais, são de instrução, são de manter o país longe da crise sanitária, literalmente não ter um córrego com bosta passando em frente de casa com dengue, zika vírus e torcer para a cólera não voltar, porque o sarampo voltou. E isso só é preocupante quando ele sai da periferia e chega aos bairros de classe média.

Nós temos tanto medo, mas tanto medo do retorno da ditadura, que a gente nem notou como os capitães do mato eleitos são filhos da ditadura. Nós temos mais repúdio à ditadura do que temos à escravidão. Escravidão que deixou como herança a cultura da violência contra a mulher e a violência contra as crianças. Isso vem da escravidão, mas quem quer discutir a respeito? N I N G U É M.

Mas o que eu sei, e tenho certeza, é que a música, a arte e o entretenimento continuam sendo usados como ferramenta, uma engrenagem de manobra política mais útil que livros. Tudo que antes era oposição virou de esquerda. E ainda lidamos com o apagão histórico e a destruição de livros de história.

Tudo que é correto é de esquerda. O Rap é esquerda, o Hip Hop é de esquerda, o Reggae tem que ser de esquerda. A coisa mais contraditória e materialista que surgiu nos anos 2000, que é a chamada Cultura Sound System, hoje é de esquerda.

Importante dizer: a maior parte desses tem uma vida que não condiz com a da maioria dos brasileiros, tem acesso ao capital e, muitas vezes, ao dinheiro público do Estado, o que fomenta o materialismo, a posse, o viés ideológico na música, nos livros, na arte, ao cinema e, principalmente, ao ócio e ao ostracismo. Acessos e possibilidades que a maioria dos brasileiros não tem, e esses mesmos não fazem aquilo que muitos dos brasileiros fazem: não jantar para poder almoçar.

A realidade é que, para validar uma ideologia político-de-estimação-partidária, a cultura de apropriação é gritante, a alteração histórica, a invenção de narrativas, a fragmentação de histórias. O rastafári criou a expressão 'nem metade da história foi contada', e não contaram mesmo. Até o rastafári não partidário virou um 'reaçafári', e Bob Marley virou um eleitor lula-petista.

O fato: esse governo (e os outros) reflete o que nós somos como nação, um povo que é racista, e que é tão racista quanto era no governo do FHC, e tão violento e misógino quanto no governo do Sarney, e tão corrupto quanto era no governo Collor, e tão burros quanto éramos no Governo da Dilma. Criamos uma lei para que não seja demonstrado racismo na rua, mas o racismo em si existe no condomínio, na escola, no banco — já vi no Rap nos anos 1990 —, e existe no reggae e na chamada cultura sound system. Vocês precisam lidar com isso um dia, porque eu não lido bem até hoje.

Nós escolhemos mal nossos políticos porque escolhemos eles por afinidade ideológica. Sequer pensamos como as promessas serão realizadas, a gente luta contra fantasmas, contra as pessoas que discordam, luta contra um cara que trabalha das 6h da manhã até as 20h da noite e que não vai votar no mesmo político que você. Aparentemente, o inimigo maior é a pessoa que trabalha.

Preste atenção, 99.9% dos eleitores do Flávio Bolsonaro nunca viram um centavo de dinheiro público, e, na mesma proporção, os eleitores do Lula também nunca viram um centavo de dinheiro público. São meros pagadores de impostos, utilizados como massa de manobra. A vida dessas pessoas não mudou na segunda-feira.

Ainda precisamos falar mais do racismo no reggae, as histórias mal contadas com viés ideológico. Se for contar algo, explicar algo, pega lá do início e vai até o final da história, principalmente se a história não for sua. Ainda precisamos falar do racismo na chamada cultura sound system, que é uma sementinha plantada lá no início dos anos 2000 em grupos de conversas online por meninos ricos e jornalistas brancos (que se acham brancos); das matérias publicadas com mentiras e invenções sobre o Reggae — o reggae no Maranhão, por exemplo —, esse preconceito e racismo contra o Rastafári — que virou coisa de branco eurocêntrico vegetariano da Vila Madalena misturada com Santa Cecília —; as histórias cada vez mais mal contadas sobre Haile Selassie; e a contradição do Hip Hop de esquerda no Brasil, que é distante das oposições políticas estadunidenses e da Nação do Islã que moldou o Hip Hop em 30 anos; e a mistura evangélica cristã em tudo isso que deixou o questionamento político de escanteio.

No fim, não seja um pet de político. Se disser que vai cobrar é mentira, porque nem mesmo temos um canal ou acesso para cobrar políticos, servidores públicos, cargos comissionados, ou qualquer acesso a formas de chegar a fazer uma cobrança efetiva pública. Você vai esperar 4 anos para poder reclamar na urna, com a possibilidade de cometer um erro maior do que há 4 anos atrás.

Ainda não consigo entender o PT; na verdade, eu consigo, só se explicar pelo ponto de vista egocêntrico do Lula, maior que o Brasil. Eu ainda não consigo entender como, desde o fim da ditadura, em 1985, só tivemos o Lula como líder da esquerda, líder do PT, líder da oposição, líder das pautas identitárias, líder em processos de corrupção, e segue a liderança. Como não conseguimos, em todos esses anos, desenvolver pessoas melhores e acabamos com um senhor de 80 anos no cargo de presidente, com a maior oposição ao Executivo já formada por gente que não se parece com a gente?

Bom, teremos mais 4 anos de encenação teatral política nos jornais, TV, YouTube e redes sociais.

Boa sorte para todos nós.